- Arilton, ja' terminou aquele relatorio?
Quem pergunta e' Dr. Eudes Ambulacrario, o chefe do Sr. Tarracho, ou o chefe do chefe de Arilton. Uma especie de avo, na hierarquia do escritorio, nao permitiu que o neto fosse jogar bola apos a escola.
Durante um segundo Arilton pensou. O relatorio estava pronto, mas se o dissesse, Dr. Eudes certamente pediria que o explicasse - e' habito dos chefes pedir relatorios ao subordinados, e nunca ler assim que prontos. Se dissesse que nao havia sequer comecado, levaria uma bronca fenomenal e perderia muitos pontos. Na pressa de responder, Arilton nao analisou todas as alternativas e escolheu pela media entre as duas:
- Estou terminando.
- Entao termine enquanto converso com o Tarracho, para depois apresenta-lo para nos - e ja' foi caminhando para a sala de Arilton, deixando o mesmo com uma expressao inenarravel.
Arilton concluiu que a media de duas alternativas ruins nao e' uma alternativa boa, e que portanto a funcao que mapeia as alternativas em seus resultados e' monotonica crescente ou decrescente, sem picos e portanto com primeira derivada igualmente monotonica...
- Arilton!
Este voltou a si com o chamado de Dr. Eudes, o chefe do chefe, segurando a porta de sua sala e o convidando (ou melhor, intimando) a entrar tambem. Agora Arilton deveria fingir trabalhar no relatorio para entao apresenta-lo aos seus superiores, nenhum dos quais capazes de tirar conclusoes sobre a monotonicidade da funcao das alternativas. Resignado, voltou. Teria tempo, enquanto fingia trabalhar no relatorio, para elaborar um plano de fuga.
Dr. Eudes nao disfarcava sua satisfacao ao mostrar seu poder e superioridade no escritorio, atitude mui contrastante com sua devocao `a meditacao, alimentacao vegan, admiracao pela natureza e pelo universo, onde tudo esta em paz, no lugar correto e em equilibrio. Ele carrega, ainda, a grande decepcao de ser um Homem, o unico ser do universo que e' capaz de introduzir o desequilibrio na Divina Criacao. E ainda, na escala dos seres humanos, ele se sentia ainda mais culpado, por ser branco, a raca que oprimiu e oprime negros, muculmanos, chineses, indios e tantas outras, por ser descendente de portugues, o povo que explorou este pais em particular com grande violencia, ganancia e ignorancia, e por pertencer `a classe media alta, num pais de gente miseravel e faminta.
Entretanto, todas estas questoes nao ocupavam a mente de Dr. Eudes ao mesmo tempo, o que o permitia manter a coerencia de seu discurso por certo tempo. Seus subordinados ressentiam-se do tratamento que lhes era dispensado, porem louvavam, `a certa distancia, sua consciencia social e "holistica", e atribuiam seu despropositos ao fardo que era seu trabalho, sua posicao.
Arilton inseria paragrafos, para depois remove-los em seu relatorio, enquanto uma certa tensao se armava na mesa de Dr. Tarracho.
Thursday, January 27, 2005
Wednesday, January 26, 2005
Astos Kuminiskavos
Astos e' um corretor de moveis, com quarenta e dois anos de idade. Cursou engenharia civil, o que causou grande orgulho a seus pais, imigrantes de Caspiar, mas ao formar-se nao encontrou emprego em sua area, nem teve tanto desgosto assim de virar um corretor de moveis, desde que pudesse comer, dormir e visitar a casa de tolerancia mais proxima de sua casa com certa frequencia.
Entretanto, desde que Astos completou quarenta e dois anos de idade, tem comportado-se de forma curiosa. Faz as coisas como sempre as fez, entretanto toma certas atitudes que podem ser qualificadas sem medo como "bizarras".
Por exemplo, certo dia chuvoso, no onibus, viu a janela aberta e nao hesitou: atirou seu guarda-chuva fora. Outro dia ainda, ao passar por uma ponte particularmente alta, deixou cair sua pasta no rio, deliciando-se com a chuva de papeis, somente para depois desesperar-se. Outro caso ainda que lhe causou grandes preocupacoes foi limpar o nariz com uma chave de fenda.
Astos nao premedita, nao planeja, nem tem alguma intencao. Mas nao consegue mais evitar estes impulsos de fazer pequenas coisas idiotas, nem a preocupacao que elas podem trazer.
Friday, January 21, 2005
Chamo a atencao para um personagem completamente irrelevante e quase inofensivo.
Ele nao adicionará nada à historia, e todos os outros personagens o ignorarao, tomando o minimo possivel contato com sua existencia. Viverá num mundo à parte, apesar de compartilhar o ambiente com outros, raramente será notado.
Terá grandes ideias. Será eloquente, veemente, apaixonado. Viverá torridas emocoes, grandes aventuras, escreverá livros, teses, fara' cancoes e sinfonias louvando o amor, a amizade, a grandiosidade da vida e o sopro vital que faz todos de os seres vivos criaturas unicas e maravilhosas. Resolvera' a questao definitiva da vida, do universo e de todas as coisas.
E, no entanto, como uma arvore caindo na floresta cuja densidade demografica é 0 pessoas/km, é como se nao houvesse existido.
Thursday, January 20, 2005
Capitulo Um: tres minutos
Arilton olhou para o relogio. 16:57. Em tres minutos sairia do trabalho. Estava enrolando o maximo que podia, sem trabalhar, olhando cuidadosamente seu chefe por cima do monitor.
16:58. E' mais facil enrolar duas horas de manha que um minuto antes das cinco. Chegaria em casa, tomaria um banho e assistiria `a novela. Comeria pizza. Dormiria e sonharia com a Daniela Ciccarelli.
16:59. Falta pouco. A Daniela Ciccarelli ajudou bastante no ultimo minuto (nota mental). Comecou a reunir suas coisas para sair exatamente `as cinco, nem mais nem menos um segundo. Daniella Cicarelli de novo. 16:59. Aparentemente o encanto acabou. Checar e-mail. (0) Novas Mensagens.
17:00. Pronto! Levanta, veste o casaco, diz tchau a todos. O chefe aparentemente aceitou sua partida sem problemas. Vitoria!
No corredor, o chefe de seu chefe vem, apressado.
"Droga!" pensou.
Sim, era exatamente o que estava pensando. O pior possivel.

