Eu sempre te amei mais-ou-menos

Monday, February 21, 2005

Assassinatos curiosos e desconexos

Numa quinta feira quente, no meio da cidade, dentre os varios predios e o trafego intenso, Dona Maria atravessa a rua, fora da faixa de pedestres, e ao chegar na calcada para um pouco para descansar. Havia sido um dia duro, mas valera a pena - havia recolhido muitas latinhas de aluminio. Estava descansando ainda quando fora eletrocutada por um homem baixinho e esquisito, quem nasceu antes de 1960 diria "um marciano", com uma pequena e estranha pistola. Logo este homem sumiu, e nenhuma testemunha soube dizer para onde ele foi.

Dois dias depois, na madrugada do sabado, um jovem rapaz voltava a pe' de uma festa onde havia experimentado LSD. Estava bastante alucinado, e nao estranhou um navio pirata descendo a rua em que caminhava. Aborreceu-se com sua prisao pelo capitao deste navio, mas nao esperava menos, de piratas. Foi obrigado mais tarde a caminhar na prancha e morreu, comido por um jacare'. Seu relogio ainda tiquetaqueia no estomago deste.

No dia seguinte, um importante executivo, Sr. Hamilton, ao assinar um contrato em seu escritorio, repentinamente explodira. A investigacao policial determinara sua caneta, que continha TNT, como a causadora deste terrivel acontecimento.

Uma dona de casa, a Dona Cremilda, atendeu `a porta enquanto preparava o almoco. Um vendedor ofereceu-lhe um produto novo, resultado das novas pesquisas tecnologias, a "Tinta Invisivel". Alegou que seu marido ia chegar e tentou fechar a porta, mas foi instada a experimentar a amostra gratis em seu proprio corpo, para enganar seu marido. Nunca mais foi vista.

Cheng Wu-Hei distraiu-se ao caminhar na rua e caiu em um bueiro aberto. Logo depois, um homem misterioso foi visto ali perto, carregando uma tampa de bueiro, e marcado como suspeito. Entretanto, nao acharam nem o corpo de Wu-Hei nem o buraco na posicao alegada pelas testemunhas.

Wednesday, February 16, 2005

O homem levantou-se cedo, desceu as escadas, tomou um cafe' com bolo e partiu para seu trabalho. La', como nao havia o que fazer, analisou certos documentos que explicavam a intrincada estrutura hierarquica da sua empresa, a TITCo (This is That Corporation). Haviam muitos gargalos de produtividade, muitos departamentos sub-utilizados e, principalmente, muitos funcionarios incompetentes. Seu relatorio estava quase pronto, se caisse nas maos certas poderia revolucionar a empresa, torna-la novamente competitiva e conferir-lhe status e poder, sonhou.

No entanto, nao sabia o que havia de errado com a TITCo. Ninguem parecia importar-se, e pior, ninguem parecia realizar trabalho util. De acordo com seu relatorio, a maior parte dos funcionarios realizavam reunioes para marcar outras reunioes, que possivelmente seriam desmarcadas pois outras reunioes para marcar reunioes haviam sido marcadas antes. Os funcionarios basicamente interagiam uns com os outros o tempo todo, fazendo negociacoes, acordos, politicagens e conchavos para prevalecerem sobre outros funcionarios, que faziam o mesmo.

O periodo de maior atividade sempre coincidia com o final do ano, onde tomavam lugar os "amigo-secretos" da empresa. Presentear bem um superior era garantia de favores no proximo ano, presentear bem um inimigo era demonstracao de superioridade, presentear bem um amigo era fortalecimento de lacos, e presentear bem um recem-admitido era demarcacao de territorio. A rede social de um funcionario falava por si - podia garantir-lhe promocoes, bonificacoes, assim como selar um destino desgracado e fadado aos circulos de "perdedores".

Terminado o documento, saboreou um cafe' e, visitando paginas aleatorias, satisfez-se com seu bom trabalho. Salvou-o no disco rigido e em um disquete, por seguranca. O checaria em casa, antes de envia-lo a um dos diretores da firma. Pensou melhor, e nao resistiu: enviou um e-mail para este diretor com o texto, sem verificacao. Trabalhou tres anos neste relatorio, devia estar bom o suficiente.

Eram 11 da manha. Havia tempo de sobra para dedicar-se ao seu hobby, a fisica teorica. Estava escrevendo um importante trabalho sobre a Teoria da Grande Unificacao, que teria a importancia historica da Teoria da Relatividade multiplicada por cem mil. Tudo comecou quando leu um artigo na Epoca, sobre como beber vinho e fazer sexo podem aumentar a qualidade de vida de doentes terminais. Nao era um doente terminal, mas bebeu vinho e fez sexo, para aumentar a qualidade de vida. Neste instante, teve uma ideia! Usando algebra tensorial e transformacoes para um espaco eliptico, poderia mostrar que as 64 variaveis utilizadas na equacao da forca nuclear fraca se tornariam apenas 3 e apenas 1 constante: F = K.J.j/y^2. Assim podia mostrar que no espaco eliptico, a gravitacao e a forca nuclear fraca sao equivalentes! Podia inferir entao que transformacoes, na era de Planck, que fizeram estas forcas diferirem, mas deixe um pouco de trabalho para os outros, pensou.

Fazia os retoques finais em seu trabalho. Pensou em fazer outra revisao bibliografica, mas desistiu da ideia. Hoje submeteria este paper para a Nature, a revista mais importante no meio cientifico. Nada como um bom dia de trabalho, pensou ao clicar em "Submit", e ainda eram 13h. Saiu para almocar.

Nao houveram repercussoes do seu trabalho, entretanto. Por um fato bizarro do destino, suas duas mensagens perderam-se de maneiras diferentes. O relatorio, por conter uma sequencia infeliz de letras, foi classificado pelo AntiVirus do diretor como "Potentially dangerous infector fucking virus", e deletado sem ler.

Ja' o paper foi mais complicado. Chegou `a redacao da Nature, onde foi impresso para ser submetido ao editor, que verificaria se o paper tem os requisitos minimos para aparecer na revista. Infelizmente, entre a impressora e a sala do editor, houve uma colisao de office-boys, um dos quais era responsavel por levar papers submetidos ao editor, e o outro era responsavel por encher a pilha de papel de rascunho. Como se pode imaginar, trocaram os papeis na colisao, e o paper revolucionario foi pra pilha de rascunho. Quando viram que o papel estava impresso nas duas faces, jogaram tudo fora.

Monday, February 14, 2005

Boris Cutoff

"Igor, escute-me com atencao. Tenho uma importante tarefa para voce. Importante e bizarra, mas e' para isso que voce e' pago. Como sabe, sou um homem de posses, muitas posses, na verdade muito mais posses do que voce e' capaz de imaginar, ou mesmo qualquer ser humano o seria, e isso torna a existencia algo extremamente fora do comum.

"Nao faco ideia, e nem quero fazer, de como e' a vida de um cidadao normal, com rendimentos, preocupacoes e atividades normais. Quando jovem, fui abencoado com a fortuna, e desde entao tenho feito coisas que ate' Deus duvida: festas, luxos, confortos, diversoes, emocoes, tudo que a vida pudesse oferecer de entretenimento eu provei, sempre discretamente, pois e' de meu feitio.

"No entanto, ultimamente, nao tenho obtido o menor prazer nessas atividades - pelo contrario, tenho experimentado muito aborrecimento, para minha dessatisfacao. Conclui que estava farto dos prazeres comuns, do paladar, do olfato, da audicao, do tato, da visao, e mesmo de outros como a satisfacao da posse, entao resolvi partir para novas experiencias, como o poder, o respeito e a intimidacao.

"Nao posso exercer o poder que proporciona minha conta bancaria, por motivos intrinsecos `as suas caracteristicas. De fato, e' peculiar minha situacao, dizem que o poder implica responsabilidade, mas acrescento que e' ao poder exercido que se imputam responsabilidades. Portanto nao exerco diretamente meus poderes, e sim atraves de voce, Igor P Value, e outros assistentes, que permitem-me interagir com o resto do mundo.

"Assim decidi exercer meu poder atraves de voce, Igor, ja' que e' o mais confiavel de meus assistentes, e ja' que esta e' uma missao incomum, mesmo para o padrao daqueles que me servem. Exercerei o poder do Medo, e serei temido por muitos, que nao conhecerao meu nome, mas temerao a mim como os primitivos temiam as forcas da Natureza.

"Sua tarefa sera' encontrar um matador, profissional, eficiente, sutil e agil, que nunca possa ser pego. Como sabe, para seu proprio bem, ja' que voce nao sabe onde estou, como me pareco, ou mesmo meu nome, pagara' sozinho se for encontrado. Mas podera' contar com a minha influencia e ajuda numa inconveniencia dessas. Ele devera' eliminar um certo conjunto de pessoas cujos nomes divulgarei no momento apropriado, para disseminar o Medo e o Respeito. Devera' ser bom o suficiente para assassinar tanto pessoas influentes e importantes quanto pessoas comuns, sempre deixando uma marca inconfundivel, para que saibam que fui eu que selou seu destino.

Igor acordou, banhado em suor. Eram 3:30 da manha. Lembrava-se palavra por palavra de tudo o que fora dito, e sabia que iria lembrar-se delas ate' a consumacao de sua tarefa. Nao sabia como vinham, mas ja' experimentara ignorar as ordens dadas por sonho, nao ousaria novamente.

Friday, February 04, 2005

Astos Kuminiskavos, o corretor de imoveis, e' chamado `a sala pelo superintendente. Levanta-se calmamente da mesa, dirige-se pelo caminho entre as mesas de seus colegas `a sala em questao. Ao verificar que ninguem estava `a sua frente, pulou de cabeca no chao e deu uma agil cambalhota, levantando-se em seguida com grande habilidade. Os colegas entreolharam-se, preocupados. Havia algum tempo que Astos tinha dado para fazer essas coisas. No inicio, nao entenderam, depois riram, depois veio a preocupacao e agora, a certeza de algo estava definitivamente errado com seu colega. E todos sabiam, tambem, que era este o assunto que o superintendente da corretora iria tratar com ele.

- Bom dia Astos. - Disse o superintendente, sem desviar a atencao dos documentos que analisava.
- Bom dia, Senhor Ambulacrario.
- Por favor, Astos, pode me chamar pelo primeiro nome.
- Tudo bem, Senhor Alexandre Ambulacrario.

O superintendente olhou-o por um instante: isto nao o surpreendia. Astos sempre foi muito formal, e pouco dado a intimidades. Sempre fora um empregado exemplar, embora nao brilhante nem particularmente simpatico, por isso estava disposto a ter um pouco de paciencia e tentar ajuda-lo.

- Astos, sei que voce e' um homem pratico, por isso vou direto ao assunto - removeu seus oculos de leitura, deixando-os pendurados pela corrente ao pescoco - a razao de te-lo chamado aqui sao as... como dizer... excentricidades, essa e' uma boa palavra, as excentricidades que voce vem fazendo.
- Sei.
- O senhor sempre foi um empregado modelo, mantem bons niveis de contratos fechados, e' muito capaz, entretanto esse comportamento vem causando certa comocao entre seus colegas e certamente entre nossos clientes.
- De fato.

O superintendente abriu a boca, como se fosse falar, mas fechou-a, e olhou para baixo, como que pensasse no que mais deveria dizer a Astos para que este entendesse o que queria dizer.

- Existe alguma razao para essas excentricidades, Astos?
- Nao existe nenhuma razao.
- Entao porque...? - e seu gesto de abrir os bracos e virar as palmas para o alto exemplificava bem sua incompreensao.

Astos nao hesitou em nenhum momento ao falar.

- Realmente nao sei, senhor. Sempre pensei nessas coisas, sabe? Em fazer coisas idiotas, como as que eu venho fazendo, mas nunca havia antes feito qualquer delas. Sempre fui muito controlado, sabe?
- Sim, eu sei. - E o superintendente realmente sabia. Ha algumas semanas, tinha Astos como o sujeito mais frio e inexpressivo que ja' conhecera.
- E de alguns dias pra ca', nem penso nessas coisas e ja' me vejo as fazendo. Como se antes essas coisas apareciam na minha mente e agora aparecem no meu corpo.
- E... me diga uma coisa, se e' que e' da minha conta.
- Fique `a vontade.
- Voce consultou alguma especie de medico?
- Nao, senhor.
- Faca isso.
- Mas que medico devo consultar?
- Um... sei la' , neurologista, psicologo, algum desses.

Astos parecia reticente, mas satisfeito por ter recebido a ordem. Sozinho, nao teria decidido.

- Sim, senhor.
- Ha' quanto tempo nao tira ferias?
- Nunca tirei, senhor. Nunca senti falta. O trabalho e' leve, e nao tenho nada para fazer fora isso.
- Bem, pense nisso. Voce pode viajar, ficar em um hotel, nao se preocupar, relaxar um pouco. Pode ser nervoso.

Astos nao queria pensar nisso. Detestaria mudar sua rotina. Mas, novamente, encarava isso como ordem. Teria que pensar nisso, mas seria em horario de servico.

Wednesday, February 02, 2005

Boris Cutoff

Apagando seu charuto no cinzeiro de ouro macico, Sr. Boris Cutoff emitiu um suspiro. Aborrecido, contemplou o Renoir, magnifico, sobre a lareira de sua biblioteca particular. Girando em sua cadeira, passou a vista sobre a sala toda, coberta por prateleiras de madeira envernizada e por livros, muitos deles antigos e raros. Sr. Boris nao havia lido todos, na verdade, apenas uma pequena parcela, mas sempre que o tentava, terminava aborrecido e devolvendo-o, resignado e meticuloso, ao mesmo local de onde saiu.

Levantou-se da cadeira, um objeto moderno porem decorado como fariam os antigos muito antigos, do seculo dezesseis, digamos. Com certa dificuldade, arquejado, alisou o amarrotado que ficou em seu robe de chambre, e curvou a coluna para tras, espreguicando-se. Para variar, estava ligeiramente entediado. Nesse estado, procurava diversas coisas para fazer, e ultimamente poucas delas surtiam efeito por mais de poucos instantes de distracao.

- Sr. Cutoff, seu cafe'.

Delicadamente, o mordomo repousou a bandeija de platina sobre a mesa de leitura de Sr. Boris. Apos isto, o mordomo foi dispensado com um abano de mao. Sr. Boris provou o cafe', colombiano, trazido de sua propriedade rural neste pais. Excepcional, mas nao mais o impressionava. E quando o cafe' nao o animava, era mais um daqueles dias.

Nesses dias, nada o animava, nem o luxo espetacular de sua residencia, nem seu imenso prestigio, nem as infinitas possibilidades de diversao que somente eram proporcionadas a homens de sua posicao social e financeira (ou seja, apenas Sr. Boris Cutoff). Nesses dias, era preciso contemplar sua colecao particular de obras de arte, a unica coisa ultimamente capaz de apaziguar seu mordaz desanimo.

Caminhou para uma prateleira de livros, localizada a sudoeste de sua lareira (voltada para o norte). Nao diferia, `a primeira vista, das outras prateleiras, entretanto uma visao mais agucada perceberia que os livros nao passavam de colecoes encadernadas, em 74 linguas, de "A Colecao Vagalume". Ao puxar o "Misterio do Hotel Cinco Estrelas", em provencal, um ruido surdo se ouviu, tal um clique, e a prateleira toda girou, levando Sr. Boris com ela. No seu lugar, ao final da rotacao, uma prateleira exatamente igual, com os mesmos livros, evitaria qualquer desconfiancao de eventuais intrusos.

Nesta sala, pseudo-obscurecida, encontrava-se o maior tesouro de Sr. Boris. Lentamente, dirigiu-se para uma corda pendendo do teto, que nao enxergava, mas sabia estar la'. Puxou-a, e uma luz branca gradualmente lavou a escuridade que absorvia a sala. Pouco a pouco, seus objetos mais preciosos revelavam-se `a vista de seu proprietario, Sr. Boris. Pensou nos pobres que iludiam-se, pensando ter `a frente os objetos originais quando visitam os museus. "Isso deve fazer" pensou "de Nicholas Hobspower, meu escultor pessoal, o arquiteto mais famoso do mundo".

La' estavam todas elas. Primeiro, como sempre fazia nesses dias de absoluto tedio, estudou a estatua do homem nu que carregava uma funda, Davi, nao e'? Procurou pela martelada no joelho deste, mas nao lembrava-se muito bem se era a estatua correta. Bem, vejamos a proxima. O que pensara' este sujeito, empertigado? Talvez na conta de agua, altissima. A agua era um bem muito precioso na europa, ainda mais na idade media. Mas esta e' uma escultura medieval? Nao importa, e' minha. Quanto ao Cristo nos bracos de sua Mae, que raios de mae e' essa que e' muito maior que o filho? Hoje, realmente, era um dia negro para Sr. Boris, ja' que nem suas maiores preciosidades conseguiam distrair sua mente.

Irritado, puxou novamente o livro que giraria a estante em 180 graus, levando-o de volta a sua biblioteca. Deixou de lado todas suas preciosidades, inclusive o quadro da senhora com olhar esfingio. Haveria de fazer alguma coisa.

Thursday, January 27, 2005

- Arilton, ja' terminou aquele relatorio?

Quem pergunta e' Dr. Eudes Ambulacrario, o chefe do Sr. Tarracho, ou o chefe do chefe de Arilton. Uma especie de avo, na hierarquia do escritorio, nao permitiu que o neto fosse jogar bola apos a escola.

Durante um segundo Arilton pensou. O relatorio estava pronto, mas se o dissesse, Dr. Eudes certamente pediria que o explicasse - e' habito dos chefes pedir relatorios ao subordinados, e nunca ler assim que prontos. Se dissesse que nao havia sequer comecado, levaria uma bronca fenomenal e perderia muitos pontos. Na pressa de responder, Arilton nao analisou todas as alternativas e escolheu pela media entre as duas:

- Estou terminando.

- Entao termine enquanto converso com o Tarracho, para depois apresenta-lo para nos - e ja' foi caminhando para a sala de Arilton, deixando o mesmo com uma expressao inenarravel.

Arilton concluiu que a media de duas alternativas ruins nao e' uma alternativa boa, e que portanto a funcao que mapeia as alternativas em seus resultados e' monotonica crescente ou decrescente, sem picos e portanto com primeira derivada igualmente monotonica...

- Arilton!

Este voltou a si com o chamado de Dr. Eudes, o chefe do chefe, segurando a porta de sua sala e o convidando (ou melhor, intimando) a entrar tambem. Agora Arilton deveria fingir trabalhar no relatorio para entao apresenta-lo aos seus superiores, nenhum dos quais capazes de tirar conclusoes sobre a monotonicidade da funcao das alternativas. Resignado, voltou. Teria tempo, enquanto fingia trabalhar no relatorio, para elaborar um plano de fuga.

Dr. Eudes nao disfarcava sua satisfacao ao mostrar seu poder e superioridade no escritorio, atitude mui contrastante com sua devocao `a meditacao, alimentacao vegan, admiracao pela natureza e pelo universo, onde tudo esta em paz, no lugar correto e em equilibrio. Ele carrega, ainda, a grande decepcao de ser um Homem, o unico ser do universo que e' capaz de introduzir o desequilibrio na Divina Criacao. E ainda, na escala dos seres humanos, ele se sentia ainda mais culpado, por ser branco, a raca que oprimiu e oprime negros, muculmanos, chineses, indios e tantas outras, por ser descendente de portugues, o povo que explorou este pais em particular com grande violencia, ganancia e ignorancia, e por pertencer `a classe media alta, num pais de gente miseravel e faminta.

Entretanto, todas estas questoes nao ocupavam a mente de Dr. Eudes ao mesmo tempo, o que o permitia manter a coerencia de seu discurso por certo tempo. Seus subordinados ressentiam-se do tratamento que lhes era dispensado, porem louvavam, `a certa distancia, sua consciencia social e "holistica", e atribuiam seu despropositos ao fardo que era seu trabalho, sua posicao.

Arilton inseria paragrafos, para depois remove-los em seu relatorio, enquanto uma certa tensao se armava na mesa de Dr. Tarracho.

Wednesday, January 26, 2005

Astos Kuminiskavos

Astos e' um corretor de moveis, com quarenta e dois anos de idade. Cursou engenharia civil, o que causou grande orgulho a seus pais, imigrantes de Caspiar, mas ao formar-se nao encontrou emprego em sua area, nem teve tanto desgosto assim de virar um corretor de moveis, desde que pudesse comer, dormir e visitar a casa de tolerancia mais proxima de sua casa com certa frequencia.

Entretanto, desde que Astos completou quarenta e dois anos de idade, tem comportado-se de forma curiosa. Faz as coisas como sempre as fez, entretanto toma certas atitudes que podem ser qualificadas sem medo como "bizarras".

Por exemplo, certo dia chuvoso, no onibus, viu a janela aberta e nao hesitou: atirou seu guarda-chuva fora. Outro dia ainda, ao passar por uma ponte particularmente alta, deixou cair sua pasta no rio, deliciando-se com a chuva de papeis, somente para depois desesperar-se. Outro caso ainda que lhe causou grandes preocupacoes foi limpar o nariz com uma chave de fenda.

Astos nao premedita, nao planeja, nem tem alguma intencao. Mas nao consegue mais evitar estes impulsos de fazer pequenas coisas idiotas, nem a preocupacao que elas podem trazer.