Apagando seu charuto no cinzeiro de ouro macico, Sr. Boris Cutoff emitiu um suspiro. Aborrecido, contemplou o Renoir, magnifico, sobre a lareira de sua biblioteca particular. Girando em sua cadeira, passou a vista sobre a sala toda, coberta por prateleiras de madeira envernizada e por livros, muitos deles antigos e raros. Sr. Boris nao havia lido todos, na verdade, apenas uma pequena parcela, mas sempre que o tentava, terminava aborrecido e devolvendo-o, resignado e meticuloso, ao mesmo local de onde saiu.
Levantou-se da cadeira, um objeto moderno porem decorado como fariam os antigos muito antigos, do seculo dezesseis, digamos. Com certa dificuldade, arquejado, alisou o amarrotado que ficou em seu robe de chambre, e curvou a coluna para tras, espreguicando-se. Para variar, estava ligeiramente entediado. Nesse estado, procurava diversas coisas para fazer, e ultimamente poucas delas surtiam efeito por mais de poucos instantes de distracao.
- Sr. Cutoff, seu cafe'.
Delicadamente, o mordomo repousou a bandeija de platina sobre a mesa de leitura de Sr. Boris. Apos isto, o mordomo foi dispensado com um abano de mao. Sr. Boris provou o cafe', colombiano, trazido de sua propriedade rural neste pais. Excepcional, mas nao mais o impressionava. E quando o cafe' nao o animava, era mais um daqueles dias.
Nesses dias, nada o animava, nem o luxo espetacular de sua residencia, nem seu imenso prestigio, nem as infinitas possibilidades de diversao que somente eram proporcionadas a homens de sua posicao social e financeira (ou seja, apenas Sr. Boris Cutoff). Nesses dias, era preciso contemplar sua colecao particular de obras de arte, a unica coisa ultimamente capaz de apaziguar seu mordaz desanimo.
Caminhou para uma prateleira de livros, localizada a sudoeste de sua lareira (voltada para o norte). Nao diferia, `a primeira vista, das outras prateleiras, entretanto uma visao mais agucada perceberia que os livros nao passavam de colecoes encadernadas, em 74 linguas, de "A Colecao Vagalume". Ao puxar o "Misterio do Hotel Cinco Estrelas", em provencal, um ruido surdo se ouviu, tal um clique, e a prateleira toda girou, levando Sr. Boris com ela. No seu lugar, ao final da rotacao, uma prateleira exatamente igual, com os mesmos livros, evitaria qualquer desconfiancao de eventuais intrusos.
Nesta sala, pseudo-obscurecida, encontrava-se o maior tesouro de Sr. Boris. Lentamente, dirigiu-se para uma corda pendendo do teto, que nao enxergava, mas sabia estar la'. Puxou-a, e uma luz branca gradualmente lavou a escuridade que absorvia a sala. Pouco a pouco, seus objetos mais preciosos revelavam-se `a vista de seu proprietario, Sr. Boris. Pensou nos pobres que iludiam-se, pensando ter `a frente os objetos originais quando visitam os museus. "Isso deve fazer" pensou "de Nicholas Hobspower, meu escultor pessoal, o arquiteto mais famoso do mundo".
La' estavam todas elas. Primeiro, como sempre fazia nesses dias de absoluto tedio, estudou a estatua do homem nu que carregava uma funda, Davi, nao e'? Procurou pela martelada no joelho deste, mas nao lembrava-se muito bem se era a estatua correta. Bem, vejamos a proxima. O que pensara' este sujeito, empertigado? Talvez na conta de agua, altissima. A agua era um bem muito precioso na europa, ainda mais na idade media. Mas esta e' uma escultura medieval? Nao importa, e' minha. Quanto ao Cristo nos bracos de sua Mae, que raios de mae e' essa que e' muito maior que o filho? Hoje, realmente, era um dia negro para Sr. Boris, ja' que nem suas maiores preciosidades conseguiam distrair sua mente.
Irritado, puxou novamente o livro que giraria a estante em 180 graus, levando-o de volta a sua biblioteca. Deixou de lado todas suas preciosidades, inclusive o quadro da senhora com olhar esfingio. Haveria de fazer alguma coisa.