Eu sempre te amei mais-ou-menos

Thursday, January 27, 2005

- Arilton, ja' terminou aquele relatorio?

Quem pergunta e' Dr. Eudes Ambulacrario, o chefe do Sr. Tarracho, ou o chefe do chefe de Arilton. Uma especie de avo, na hierarquia do escritorio, nao permitiu que o neto fosse jogar bola apos a escola.

Durante um segundo Arilton pensou. O relatorio estava pronto, mas se o dissesse, Dr. Eudes certamente pediria que o explicasse - e' habito dos chefes pedir relatorios ao subordinados, e nunca ler assim que prontos. Se dissesse que nao havia sequer comecado, levaria uma bronca fenomenal e perderia muitos pontos. Na pressa de responder, Arilton nao analisou todas as alternativas e escolheu pela media entre as duas:

- Estou terminando.

- Entao termine enquanto converso com o Tarracho, para depois apresenta-lo para nos - e ja' foi caminhando para a sala de Arilton, deixando o mesmo com uma expressao inenarravel.

Arilton concluiu que a media de duas alternativas ruins nao e' uma alternativa boa, e que portanto a funcao que mapeia as alternativas em seus resultados e' monotonica crescente ou decrescente, sem picos e portanto com primeira derivada igualmente monotonica...

- Arilton!

Este voltou a si com o chamado de Dr. Eudes, o chefe do chefe, segurando a porta de sua sala e o convidando (ou melhor, intimando) a entrar tambem. Agora Arilton deveria fingir trabalhar no relatorio para entao apresenta-lo aos seus superiores, nenhum dos quais capazes de tirar conclusoes sobre a monotonicidade da funcao das alternativas. Resignado, voltou. Teria tempo, enquanto fingia trabalhar no relatorio, para elaborar um plano de fuga.

Dr. Eudes nao disfarcava sua satisfacao ao mostrar seu poder e superioridade no escritorio, atitude mui contrastante com sua devocao `a meditacao, alimentacao vegan, admiracao pela natureza e pelo universo, onde tudo esta em paz, no lugar correto e em equilibrio. Ele carrega, ainda, a grande decepcao de ser um Homem, o unico ser do universo que e' capaz de introduzir o desequilibrio na Divina Criacao. E ainda, na escala dos seres humanos, ele se sentia ainda mais culpado, por ser branco, a raca que oprimiu e oprime negros, muculmanos, chineses, indios e tantas outras, por ser descendente de portugues, o povo que explorou este pais em particular com grande violencia, ganancia e ignorancia, e por pertencer `a classe media alta, num pais de gente miseravel e faminta.

Entretanto, todas estas questoes nao ocupavam a mente de Dr. Eudes ao mesmo tempo, o que o permitia manter a coerencia de seu discurso por certo tempo. Seus subordinados ressentiam-se do tratamento que lhes era dispensado, porem louvavam, `a certa distancia, sua consciencia social e "holistica", e atribuiam seu despropositos ao fardo que era seu trabalho, sua posicao.

Arilton inseria paragrafos, para depois remove-los em seu relatorio, enquanto uma certa tensao se armava na mesa de Dr. Tarracho.

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